O meu cantinho...

Este é o blog de um tipo que veio da zona de Lisboa à procura da felicidade... O blog serve como depositário dos estados de espírito, emoções, ideias...

quinta-feira, janeiro 20, 2005

Já não acredito...

Já não acredito em algumas palavras de mudança, mas eu que não sei muitas coisas, é bem verdade, ainda acredito em ti, no teu andar, nos teus passos, no teu caminho, nesse inseguro desperdício de certezas, pois sei que amanhã essas palavras vazias que te dizem agora serão trocadas por outras, plenas, luminosas, encostadas ao tronco de árvores honestas, gozando a sombra discreta do Sol, luz para a dor, mesmo logo depois do vento ter empurrado as nuvens, a chuva, o Inverno, e serenamente a maré ter subido tão melodiosamente como música para nenhum instrumento, tão vagarosamente repetida que se podia ouvir a noite inteira...
Porque tu, dois olhos, olhaste firmemente, decisivamente, para depois do horizonte e no paredão, pedra junto ao mar, escreveste com a boca, letra redonda, “Tu nunca me esqueças nunca” e rodeaste com alívio esse branco abandonado.
E é só nisso que ainda acredito, pois não sei muitas coisas, é bem certo, mas sei que o melhor remédio para continuar a viver (...) é não morrer sem amar alguém.

Pedro Strecht (1999).

Quando damos o que temos...

Quando damos o que temos,
Tudo aquilo que nós temos
- Horas, minutos, segundos,
Dos instantes que vivemos;
Pensamentos, sonhos, versos
Dos poemas que escrevemos

Quando damos o que temos
À pureza duma alma
De quem nada recebemos,
É que melhor descobrimos
Porque razão existimos,
Porque motivo sofremos.

António Brochado Rodrigues

Poema...

Se puderes separar
a minha parte que é chama
da minha parte que é água,
se não puderes traçar
entre uma e outra uma trégua,
se puderes ser a arte
tão triste de me apagar
com uma parte outra parte
e essa te possa amar
em meu lugar como eu posso,
com o total de quem ama,
deita-me a alma contigo
e o corpo na outra cama.

Embora saiba que o sonho
nem só por alma reclama.
Quanto mais alma lhe ponho
mais o corpo se me inflama.

Se puderes separar
a minha parte que é água
da minha parte que é chama,
deita-me o corpo contigo
e a alma na outra cama.

Mas crê que a fractura é crime.
Só o conjunto é sublime.
Só, nenhum deles me exprime.
Só, nenhum deles te ama.

Martinho Marques

sexta-feira, janeiro 07, 2005

Mulher, esse bicho...

Um dia uma Dona de Casa, apanhava gravetos e lenha miúda para o fogão,para fazer o almoço para a família. Ao cortar um galho de uma árvore já tombada na margem do rio, o machado caiu dentro da água. A mulher suplica a Deus que lhe aparece e pergunta:- Porque choras? A mulher responde que o machado se tinha perdido no rio. E Deus entra nas águas, das quais tira um machado de ouro, e pergunta:- É este o teu machado?A nobre mulher responde:- Não Deus, não é esse. Deus entra novamente no rio e desta vez tira um machado de prata:- E este é o teu? -Também não. - responde a dona de casa. Deus volta ao rio de onde tira um machado de ferro e pergunta:- É este o teu machado?"- Sim - responde a nobilíssima mulher. Deus estava contente com a sinceridade da mulher, e mandou-a de volta para casa dando-lhe de presente os 3 machados. Um dia, a mulher e seu amantíssimo marido estavam a passear pela margem do rio quando ele tropeçou e caiu à água. A infeliz mulher então, chora, grita e suplica a Deus que aparece e pergunta:- Mulher, porque choras?"A mulher responde que o seu esposo caiu no rio, e imediatamente Deus mergulha e retira das águas o Tom Cruise, e pergunta:- É este o seu marido?"- Sim, sim. É ele. - responde a mulher - e Deus enfurece-se.- Mulher mentirosa e pecaminosa !!! - exclama. Mas a mulher rapidamente explica: - Deus, perdoe-me, foi um mal entendido. Se eu dissesse que não, então o Senhor tiraria o Brad Pitt do rio, depois se eu dissesse que não era ele, o Senhor tiraria o meu marido, e quando eu dissesse sim o Senhor mandaria que eu ficasse com os 3. Mas eu sou uma humilde e honesta mulher e não poderia cometer tamanho adultério..., só por isso eu disse 'sim' para o primeiro deles. E Deus achou justo, e perdoou-a.
Moral da história:"As mulheres mentem de um jeito tal que até Deus acredita."

Fonte: Mother do Gabriel (obrigado pela partilha!)

terça-feira, janeiro 04, 2005

Contra as touradas...

MIURA

Fez um esforço. Embora ardesse numa chama de fúria, tentou refrear os nervos e medir com a calma possível a situação.
Estava, pois, encurralado, impedido de dar um passo, à espera de que lhe chegasse a vez!
Um ser livre e natural, um toiro nado e criado na lezíria ribatejana, de gaiola como um passarinho, condenado a divertir a multidão! Irreprimível, uma onda de calor tapou-lhe o entendimento por um segundo. O corpo, inchado de raiva, empurrou as paredes do cubículo, num desespero de Sansão.
Nada. Os muros eram resistentes, à prova de quanta força e quanta justa indignação pudesse haver. Os homens, só assim: ou montados em cavalos velozes e defendidos por arame farpado, ou com sebes de cimento armado entre eles e a razão dos mais...
Palmas e música lá fora. O Malhado dava gozo às senhorias...
Um frémito de revolta arrepiou-lhe o pêlo. Dali a nada, ele. Ele Miura, o rei da campina !
A multidão calou-se. Começou a ouvir-se, sedante, nostálgico, o som grosso e pacífico das chocas.
A planície!...O descampado infinito, loiro de sol e trigo... O ilimitado redil das noites luarentas, com bocas mudas, limpas, a ruminar o tempo... A fornalha escaldante, sedenta, desesperante, que o estrídulo das cegarregas levava ao rubro.
Novamente o silêncio. Depois, ao lado, passes incertos de quem entra vencido e humilhado no primeiro buraco...
Refrescou as ventas com a língua húmida e tentou regressar ao paraíso perdido.
A planície...
Um som fino de corneta.
Estremeceu. Seria agora? Teria chegado, enfim, a sua vez?
Não chegara. Foi a porta da esquerda que se abriu, e o rugido soturno que veio a seguir era do Bronco.
Sem querer, cresceu outra vez quanto pôde para as paredes estreitas do cárcere. Mas a indignação e os músculos deram em pedra fria.
A planície... O bebedoiro da Terra-Velha, fresco, com água limpa a espelhar os olhos...
Assobios.
O Bronco não fazia bem o papel...
Um toque estranho, triste, calou a praça e rarefez o curro.
Rápida e vaga, a sombra do companheiro passou-lhe pela vista turva. Apertou-se-lhe o coração. Que seria?
Palmas, música, gritos.
Um largo espaço assim, com o mundo inteiro a vibrar para além da prisão. Algum tempo depois, novamente o silêncio e novamente as notas lúgubres do clarim.
Todo inteiro a escutar o dobre a finados, abrasado de não sabia que lume, Miura tentava em vão encontrar no instinto confuso o destino do amigo.
Subitamente, abriu-se-lhe sobre o dorso um alçapão, e uma ferroada fina, funda, entrou-lhe na acme viva. Cerrou os dentes, e arqueou-se, num ímpeto.
Desgraçadamente, não podia nada. O senhor homem sabia bem quando e como as fazia. Mas por que razão o espetava daquela maneira?
Três pancadas secas na porta, um rumor de tranca que cede, uma fresta que se alargou, deram-lhe num relance a explicação do enigma da agressão: chegara a sua vez.
Nova picada no lombo.
- Miura! Cornudo!
Dum salto todo muscular, quase de voo, estava na arena.
Pronto !
A tremer como varas verdes, de cólera e de angústia,
olhou à volta. Um tapume redondo e, do lado de lá, gente, gente, sem acabar.
Com a pata nervosa escarvou a areia do chão. Um calor de bosta macia correu-lhe pelo rego do servidoiro. Urinou sem querer.
Gritos da multidão.
Que papel ia representar! Que se pedia do seu ódio?
Hesitante, um tipo magro, doirado, entrou no redondel.
Olhou-o a frio. Que força traria no rosto mirrado, nas mãos amarelas, para se atrever assim a transpor a barreira?
A figura franzina avançou.
Admirado, Miura olhava aquela fragilidade de dois pés.
Olhava-a sem pestanejar, olímpica e ansiosamente.
Com ar de quem joga a vida, o manequim de lantejoulas caminhava sempre. E, quando Miura o tinha já à distância dum arranco, e ainda sem compreender olhava um tal heroísmo, enfatuadamente, o outro bateu o pé direito no chão e gritou:
-Eh! boi Eh! toiro!
A multidão dava palmas.
-Eh! boi Eh! toiro!
Tinha de ser. Já que desejavam tão ardentemente o fruto da sua fúria, hei-lo.
Mas o homem que visou, que atacou de rente, cheio de
lealdade, inesperadamente transfigurou-se na confusão de uma nuvem vermelha, onde o ímpeto das hastes aguçadas se quebrou desiludido.
Cego daquele ludíbrio, tornou a avançar. E foi uma torrente de energia ofendida que se pôs em movimento.
Infelizmente, o fantasma, que aparecia e desaparecia no mesmo instante, escondera-se covardemente de novo por
detrás da mancha atordoadora. Os cornos ávidos, angustiados, deram em cor.
Mais palmas ao dançarino.
Parou. Assim nada o poderia salvar. À suprema humilhação de estar ali, juntava-se o escárnio de andar a marrar em sombras. Não. Era preciso ver calmamente. Que a sua raiva atingisse ao menos o alvo.
O espectro doirado lá estava sempre. Pequenino, com ar de troça, olhava-o come se olhasse um brinquedo inofensivo.
Silêncio.
Esperou. O homem ia desafiá-lo certamente outra vez.
Tal e qual. Inteiramente confiado, senhor de si, veio vindo, veio vindo até não poder sair do domínio dos chifres.
Agora !
De novo, porém, a nuvem vermelha apareceu. E de novo
Miura gastou nela a explosão da sua dor.
Palmas, gritos.
Desesperado, tornou a escarvar o chão, agora com as patas e com os galhos. O homem!
Mas o inimigo não desistia. Talvez para exaltar a própria vaidade, aparentava dar-lhe mais oportunidades. Lá vinha todo empertigado, a apontar dois pequenos paus coloridos, e a gritar como há pouco:
- Eh! toiro! Eh! Boi!
Sem lhe dar tempo, com quanta alma
pôde, lançou-se-lhe à figura, disposto a tudo. Não trouxesse ele o pano mágico, e veríamos!
Não trazia. E, por isso, quando se encontraram e o outro lhe pregou no cachaço, fundas, dolorosas, as duas farpas que erguia nas mãos, tinha-lhe o corno direito enterrado na fundura da barriga mole.
Gritos e relâmpagos escarlates de todos os lados.
Passada a bruma que se lhe fez nos olhos relanceou a vista pela plateia Então?!
Como não recebeu qualquer resposta, desceu solitário à consciência do seu martírio. Lá levavam o moribundo em braços, e lá saltava na arena outro farsante doirado.
Esperou. Se vinha sem a capa enfeitiçada, sem o diabólico
farrapo que o cegava e lhe perturbava o entendimento, morria.
Mas o outro estava escudado.
Apesar disso, avançou. Avançou e bateu, como sempre, em algodão.
Voltou à carga.
O corpo fino do toureiro, porém, fugia-lhe por artes infernais.
Protestos da assistência.
Avançou de novo. Os olhos já lhe doíam e a cabeça já lhe andava à roda.
Humilhado, com o sangue a ferver-lhe nas veias, escarvou a areia mais uma vez, urinou e roncou, num sofrimento sem limites. Miura, joguete nas mãos dum Zé-Ninguém!
Num ímpeto, sem dar tempo ao inimigo, caíu sobre ele. Mas quê! Como um gamo, o miserável saltava a vedação.
Desesperado, espetou os chifres na tábua dura, em direcção à barriga do fugitivo, que arquejava ainda do outro lado. Sangue e suor corriam-lhe pelo lombo abaixo.
Ouviu uma voz que o chamava. Quem seria? Voltou-se. Mas era um novo palhaço, que trazia também a nuvem, agora pequena e triangular.
Mesmo assim, quase sem tino e a saber que era em vão que avançava, avançou.
Deu, como sempre na miragem enganadora.
Renovou a investida. Iludido, outra vez.
Parou. Mas não acabaria aquele martírio? Não haveria remédio para semelhante mortificação?
Num último esforço, avançou quatro vezes. Nada. Apenas palmas ao actor.
Quando? Quando chegaria o fim de semelhante tormento?
Subitamente, o adversário estendeu-lhe diante dos olhos congestionados o brilho frio dum estoque.
Quê?! Pois poderia morrer ali, no próprio sítio da sua humilhação?! Os homens tinham dessas generosidades?!
Calada, a lâmina oferecia-se inteira.
Calmamente, num domínio perfeito de si, Miura fitou-a bem. Depois, numa arremetida que parecia ainda de luta e era de submissão, entregou o pescoço vencido ao alívio daquele gume.

"Bichos" – Miguel Torga

segunda-feira, janeiro 03, 2005

Tristeza...

Tristeza
Que me invade os sentidos
A solidão é um convite
À morte dos dias

Lágrima que já não cai
Olhar dormente vazio
Nas últimas horas dos dias

Sofrimento
Que já não tenho nem sinto

Tu... ilusão, condeno
Feitiço quebrado
Aurora negra

És meu sangue parado
Morto, vidrado

Vazio
Tudo deixou de ser
De estar, de existir

Resta-me o vazio
Do meu olhar parado
Cálido, num corpo sem vida

Sentir
Qual sentir?
Se já não sinto quem sou
Nem sinto quem és, o que és
Ao que vens

Em mim nada habita
Nada floresce
Geada de pedra cresce
Erva daninha

São meus braços troncos
Estéreis, frios
Onde tudo finda

Fecundo é o mar que lava a alma
Na noite negra do meu baptismo
Rosa dos ventos
Perdida seara...
O fogo purifica os corpos
O mar os olhos...


Tristeza
É amar sem ser amado
É nunca ter sabido amar
É estar só e não saber ser gente

Tristeza
É ser tudo e não ter nada
É ver quem passa
Não tendo para onde ir também

Tristeza ... ah tristeza
É ter um sentimento que já não tenho
É saber-se nu sem ter o que vestir
É saber-se amado e não amar

És triste tu
Que só, continuas tua vida
Condenando a minha
Forma estranha de viver

Sábias palavras
Só é triste quem quer ser

Eu invento-me e renasço
Num mergulho profundo
No centro da terra
Pelo mar subo
Ao fim de mim

E quando julgares que é esse o meu fim
Estarei olhando quem passa
Rindo miséria e chorando alegria
Pois eu serei sempre assim