O meu cantinho...

Este é o blog de um tipo que veio da zona de Lisboa à procura da felicidade... O blog serve como depositário dos estados de espírito, emoções, ideias...

sexta-feira, março 17, 2006

"Los Lunes Al Sol"

Recentemente tive oportunidade de visionar esta obra prima realizada por Fernando León de Aranoa.
É um filme realista sobre um dos males mundiais mais devastador: o desemprego.
Estamos na Galiza actual, mas bem podia ser em Portugal na margem sul do Tejo, de estuários a rebentar de ferrugem, de pessoas nas ruas mas sem qualquer destino, de um desemprego crescente, de famílias destroçadas, de vidas desfeitas e a fazer apostas no futuro quase nulas, sobretudo vidas já quase desprovidas de qualquer fé. “Los Lunes Al Sol” destrói o tempo, coloca-nos no meio de um maellström desértico e vazio e deixa-nos sem qualquer perspectiva. Passeamo-nos por ali e vamos percebendo que o estado das coisas só nos deixa uma opção, ficar a assistir ao desmoronamento - para os mais afortunados, ainda assim, ao sol.
A maior mensagem chega-nos de Amador, quando entre copos nos explica a regra dos Siameses: mesmo que um tente atirar o outro, sempre os dois acabam por cair, unidos para sempre que estão. Assim mesmo o percebe Santa, quando em voz sindical nos dá conta e aos demais da falha de resistência dos trabalhadores como a causa para o desmoronamento. Mas não há hipótese. Nada é preto no branco. Nem todos podem resistir o mesmo tempo. E “Los Lunes Al Sol” coloca-nos não do lado dos trabalhadores, mas do ser humano e do seu percurso natural, hoje em dia cada vez mais violentado e afastado da sua linha da vida quando ainda segue apenas a meio.
É a destruição do tempo. A perda total de um norte e um sul. “Quem sou?” e “Para onde vou?” não interessam mais. Já nem os dias contam. Será mesmo segunda-feira?...
Santa trabalhou 4 anos e até se ofereceu para horas extraordinárias de graça; no fim ainda teve de pagar o arranjo de um candeeiro de rua; Lino tem esposa em casa e um filho a caminho da maturidade, mas todos os dias é ele que faz o caminho inverso, tentanto reverter o tempo nos cabelos brancos e reaprendendo etiquetas e ensinamentos técnicos - a conclusão geral, para todos, fica resumida ao olhar no espelho de Lino: o confronto consigo mesmo, o encontro do seu lugar no mundo, ou, como todos vão percebendo, de que não têm mais lugar neste mundo, um mundo onde as canetas já falham e, tal como se apercebe Amador, onde até as luzes já são automáticas... e também se apagam.
Javier Bardem tem uma actuação a merecer palmas de pé e vénia.
Aconselho vivamente!